Separatismo ganha força em 2014, mas não o suficiente

JORNAL DO BRASIL

Publicado originalmente em 25/12

Mesmo com avanços, várias regiões não conseguiram independência

Agência ANSA

São vários os motivos pelos quais uma região luta por independência. Questões sociais, culturais, políticas e econômicas se diferenciam em cada caso, mas são essenciais para compreender todos eles. O ano de 2014 foi repleto de movimentos separatistas, porém, apesar de notáveis avanços por parte de alguns povos, a tão esperada independência não foi alcançada pela maioria.

    Os casos mais notáveis de 2014 foram os da Escócia e da Catalunha, que atraíram a atenção internacional por envolverem os influentes Reino Unido e Espanha, respectivamente, e colocarem em xeque a formação da União Europeia (UE).

    No primeiro caso, o desejo de se separar do Reino Unido vem desde o século XIV. No entanto, somente a partir da década de 1920 que o discurso de separação da Inglaterra, País de Gales e Irlanda do Norte ganhou mais força. Em 1934, foi criado o Partido Nacional Escocês (SNP, na sigla em inglês) que cresceu dentro do Parlamento do país, ocupando o maior número de cadeiras no final dos anos 1990 e no começo dos anos 2000.

    Dessa forma, a independência da região se tornou uma possibilidade real em 2013, ano em que foi consentida pelos governos da Escócia e do Reino Unido a formulação de um plebiscito, realizado apenas em 18 de setembro de 2014. O “não” venceu o pleito com 55% dos votos, contra 45% do “sim” pela independência, resultado que satisfez sobretudo o primeiro-ministro britânico, David Cameron, que foi um dos principais organizadores da campanha “Better Together” (“Melhor Juntos”, em tradução livre do inglês). Já para o então premier escocês, Alex Salmond, as urnas o levaram à sua maior derrota política, que o obrigou a renunciar ao cargo.

    De acordo com especialistas consultados pela ANSA, os principais motivos para a vitória do “não” estão ligados à insegurança da população local sobre os rumos da economia e da política em um país independente. Além disso, segundo ressalta o professor de ciências políticas da Universidade de Strathclyde, de Glasgow, John Curtice, o “não” sempre foi o favorito nas pesquisas.

    Quando o “sim” ganhou pela primeira e única vez na pesquisa da YouGov/Sunday Times, a apenas 10 dias do plebiscito, a campanha contra a independência se tornou mais forte e incisiva.

    Mesmo assim, Curtice diz que “é preciso mudar alguns objetivos da campanha do ‘sim'”, como reestruturar os projetos. “É necessário entender que essa é uma luta de séculos, mas que continuará por quanto tempo for necessário, até a vitória do sim”, comentou o professor. Ele ressaltou que, além dos fatores culturais, os econômicos são de grande importância para se entender a questão da Escócia, já que a região conta com 90% das reservas de petróleo do Mar do Norte, que são importantes para o Reino Unido.

    Apesar de mais recente que a luta na Escócia, a busca pela independência da Catalunha tem ganhado mais força e atraído maior público a cada ano. A região, localizada no nordeste do país, conta com a sua própria língua, o catalão, e com uma matriz cultural que se difere do resto da nação. Em 2014, no entanto, o movimento separatista conquistou um dos seus maiores triunfos, levando às ruas mais de 1,8 milhão de pessoas, principalmente jovens, para protestarem pela independência.

    O estudante espanhol Paulo Benazet Montobbio, que tem participado dos movimentos pró-separação da Catalunha em Barcelona, disse à ANSA que o governo central “menospreza o povo catalão”. “A maioria dos catalães está tão desconfortável que nem se sente mais parte da nacionalidade espanhola”, contou.

    Além disso, o fator econômico também pesa na decisão, já que região é uma das mais importantes economicamente para a Espanha e contribui com quase um terço da arrecadação nacional de impostos. No entanto, a quantidade de recursos que a Catalunha recebe do governo para os serviços públicos, como saúde, educação, transporte e moradia, não corresponde à sua participação no Produto Interno Bruto (PIB).

    “Caso fôssemos um país pequeno, seria mais fácil nos adaptarmos às necessidades reais do nosso povo, ter uma voz própria no mundo e ter a oportunidade de criar um Estado digno do século XXI”, disse, por sua vez, o também estudante Gerard Pijoan Homs.

    Durante todo o ano, Artur Mas, presidente do governo da Catalunha, tentou convocar um plebiscito pela independência da região. A votação, no entanto, foi proibida todas as vezes pelo governo espanhol. Diante do impasse, o governante resolveu realizar uma consulta informal, sem nenhuma validade jurídica, no dia 9 de novembro, ocasião em que os catalães responderam a duas perguntas: “Você quer que a Catalunha seja um Estado?” e, em caso afirmativo, “quer que este Estado seja independente?”.

    Com uma participação superior a 2 milhões de pessoas, o “sim-sim” venceu com mais de 80% dos votos. Porém, para o professor de direito público da Universidade Autônoma de Madri (UAM), Antonio Arroyo, a independência da região não é a solução. Para ele, “chegou o momento de propor uma reforma constitucional de alto escalão, não com a única finalidade de dar uma resposta satisfatória à ‘questão Catalunha’, mas sim com o objetivo de oferecer uma resposta satisfatória aos muitos problemas que o Estado espanhol tem em seu conjunto”. O futuro da Catalunha ainda é enigmático. Mas é certo que o tema perdurará ao longo de 2015. (ANSA)