Referendo pela independência da Escócia marca virada histórica na Europa

6.set.2014 – Com uma sorridente rainha Elizabeth 2ª ao centro, o príncipe Philip (esq.) e o príncipe Charles (dir.) usam traje típico escocês enquanto assistem a competições esportivas na Escócia

Notícias.UOL

Publicado originalmente em 08/09/14
Luiz Felipe de Alencastro

Perplexidade em Londres e nas outras capitais europeias. Pela primeira vez na campanha do referendo que ocorrerá no próximo domingo, dia 18, as sondagens mostram que há uma maioria de 51% de escoceses favoráveis à independência de sua terra.

Decidido em 1997 pelo governo Tony Blair, o processo de descentralização do Reino Unido permitiu a criação de um Parlamento em Edimburgo em 1999, o qual formou em seguida o Scottish Executive, ou seja, o governo da Escócia.  Em 2012, o atual primeiro-ministro do Reino Unido, David Cameron, assinou um acordo para a realização de um referendo sobre a independência da Escócia. Agora, a Escócia encontra-se a um passo da independência completa do governo do Londres.
De todo modo, mesmo se os independentistas não obtiverem a maioria de votos no dia 18, a autonomia escocesa sairá consolidada. De fato, o governo britânico, apoiado pela oposição trabalhista, já está decidido a ampliar os poderes do Parlamento escocês, garantindo um estatuto próximo da independência para o governo de Edimburgo.
Resta que o processo de autonomia escocesa marca uma virada histórica no Reino Unido e na Europa contemporânea. A libra inglesa se desvalorizou quando foi publicada a sondagem indicando a provável vitória dos independentistas escoceses.
Mas a independência traria consequências bem mais amplas. Segundo o jornal londrino “The Telegraph”, a rainha Elizabeth 2ª estaria “horrorizada” com a perspectiva da independência da Escócia, que enfraqueceria a Coroa britânica e desencadearia uma crise constitucional.
Em particular, o Trabalhismo sairia muito enfraquecido, visto que os escoceses constituem os mais fiéis eleitores do partido, enviando regularmente numerosos deputados ao Parlamento de Londres. Atualmente, dos 41 deputados escoceses que tem assento em Westminster, 40 pertencem ao Labour e somente 1 aos conservadores (Tories). Com a eventual independência da Escócia, os 41 postos de deputados seriam suprimidos e o Labour passaria a ter 217 deputados em vez dos 257 atuais de que dispõe em Londres.
Ainda que o processo de autonomia da Escócia tenha sido conduzido democraticamente, em perfeito acordo com o governo de David Cameron, a acentuação do separatismo ou a independência do país relançará outros movimentos independentistas no seio da União Europeia.
Assim, os acontecimentos em curso na Escócia são seguidos de perto pelo País Basco e pela Catalunha, onde – em total desacordo com o governo de Madrid – há um referendo sobre a independência marcado para 9 de novembro deste ano.
Na circunstância, a Espanha está no centro das tensões separatistas europeias e ficaria seriamente abalada com a separação do País Basco e da Catalunha. Enquanto a eventual independência da Escócia abateria somente 9% do PIB total do Reino Unido, a independência da Catalunha e do País Basco tiraria 25% do já combalido PIB espanhol.