Brams: o movimento catalão que também é uma banda

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Publicado originalmente em 19/01/15

Andreia Martins, RTP

Identificam-se desde os anos 90 como um grupo de rock catalão e a designação não poderia ser mais indicada. Brams é música mas confunde-se muitas vezes com política e ativismo. As letras e os sons que constituem a discografia deste grupo glorificam desde 1990 a emancipação e a luta pelo território.

Em entrevista à edição catalã do El País, o músico Francesc Ribera, mais conhecido por Titot, vocalista que dá a face pela banda desde o lançamento dos primeiros trabalhos, em 1990, fala da experiência pessoal e da luta dos catalães pela afirmação territorial, desde os tempos de escola. Nasceu em Berga em 1967 e iniciou-se nos movimentos políticos em 1985, pelo Movimento de Defesa da Terra.

A música ao serviço da política

Numa Espanha em transição para a democracia, o cantor destaca o ambiente de submissão e aceitação em que os seus pais cresceram. A chama do separatismo foi reavivada com o movimento Terra Lliure (Terra Livre), um grupo terrorista, como foi designada pelo governo de Madrid.

O grupo nasce em 1978 após a queda do franquismo e o início da transição democrática em Espanha, que reestabeleceu constitucionalmente o estatuto de autonomia da Catalunha enquanto Região Autónoma. A organização de extrema-esquerda pretendia criar um Estado marxista na região catalã, insatisfeita com o nível de autonomia concedido por Espanha.

Desencadeou dezenas de ataques separatistas que causaram feridos e um morto. Declarado como “grupo terrorista” pelo governo de Madrid, os elementos mais moderados acabaram por aderir à Esquerda Republicana da Catalunha.

Depois das intervenções policiais no sentido de desmantelar esta organização terrorista, regressa o silêncio e esmorece a luta pela causa catalã. É precisamente nesta época que Titot assume definitivamente as suas orientações políticas e encontrou refúgio na música.

“Na verdade, a música serviu como o único meio de comunicação que nos era autorizado”, diz o cantor, que se juntou a Txema Gomez para criar o grupo, em 1990.

Brams lançaram os primeiros álbuns enquanto grupo amador: em 1992 é lançado o primeiro álbum, “Amb el Rock a la Faixa”. Só em 1995, com o terceiro álbum, “Cal Seguir Llutant”, há um salto qualitativo na qualidade de gravação e produção musical.

A banda decide interromper actividade em 2005, com Titot a passar por outras bandas de raiz catalã, nomeadamente a Mesclat, Dijous Paella e a própria Aramateix, que nasce de uma cisão no seio da Brams.

Regresso no momento certo

Seis anos depois, o grupo decide voltar a reunir-se para festejar os 20 anos de existência, e volta aos estúdios, numa altura em que a Catalunha luta pela independência sobe de tom.

O momento de afirmação da banda e do vocalista é provavelmente a atuação no Concerto pela Liberdade, a 29 de julho de 2013, realizado em Camp Nou.

Titot canta “Jo vull per demà la meva terra lliure” (Amanhã quero a minha terra livre) e discursa efusivamente: “Eu tenho um exército. Um exército de 300 anos, e é graças a ele que não fomos destruídos enquanto povo. Este exército é cultural e os nossos soldados são professores, atores, escritores, cientistas, investigadores, voluntários e milhares de militantes da cultura popular em cada vila e em cada bairro. E este exército está em todo o lado, preparado e armado nos Países Catalães. Este exército fará da nossa nação uma terra livre”.

O regresso de Francesc Ribera e companhia coincide com uma altura em que a luta pela independência catalã sobe de tom. Ainda na passada semana, Artur Mas anunciou a antecipação das eleições regionais para 27 de setembro de 2015, o terceiro escrutínio na Catalunha nos últimos cinco anos.

No mais recente disco da banda, lançado em 2014, “Anem tancant les portes a la por” ou “Fechámos as portas ao medo” a temática é geral e unânime, e outra coisa não seria de esperar: a independência da Catalunha. Foi editado em abril, num ano em que se realizou um histórico referendo, com mais de dois milhões de catalães a pedirem a independência da região.

Um referendo que apesar da esmagadora vitória do “Sim”, teve poucos ou nenhuns efeitos práticos, para além de ter servido para evidenciar a mão firme de Madrid, que o declarou como inconstitucional desde o princípio. “Eu coloco-me na pele dos nossos adversários, num exercício de empatia para tentar entender porque é que os espanhóis não nos vêem como uma entidade política que é, para nós, uma evidência histórica.” O vocalista diz que a causa está nas escolas, na forma como a história de Espanha é leccionada e afirma: “Nós também estudávamos essa história, mas isso tem vindo a mudar nos últimos 30 anos.”

É essa forma de ensinar a história e de ignorar a tradição e cultura catalãs que as letras do novo álbum evidenciam. Na faixa “Història d’Espanya (explicada pels espanyols)” é subjacente a carga de uma mensagem irónica: “Bem-vindos e bem-vindas à classe magistral/da história de Espanha, oficial/ que conta as fábulas e contos obscenos/ com que os nacionalistas indoutrinam as crianças”. Em “El més precís dels mapes” ou em tradução livre para português “O mais preciso dos mapas”, a revolta é óbvia: “O fim é o desejo de negação/ e a obsessão/ contra tudo o que cheira a Catalão/ é o que faz de nós/ ainda mais reais.”.