Dois milhões de Catalães desafiam a Espanha e votam por um Estado próprio

FOTOS BCN2

Os catalães protagonizaram no domingo, 9 de novembro (9N), uma grande rebelião, em ambiente cívico e festivo, diante do Governo da Espanha. Mais de 2,3 milhões de pessoas ignoraram a proibição do Tribunal Constitucional contra o referendo simbólico sobre a independência da Catalunha e depositaram nas urnas espalhadas por todas as cidades da região votos, manifestando para o mundo que têm o direito a decidir sobre o seu futuro. O que chamou mais atenção é que não houve conflito nas ruas, nem atuação policial para reprimir a organização do evento.

Pelos cálculos iniciais dos organizadores do 9N, o Sim-Sim, que significa o desejo de ter um estado próprio e que seja independente da Espanha venceu com 80,8%, o que representa 1,86 milhão de votos. Outros 10,1%  (232 mil votos) manifestaram-se pelo Sim-Não: a favor que a Catalunha se constitua como um estado próprio, mas sem sair da Espanha. Enquanto 4,5% (104 mil votos) externaram o Não categórico. Ou seja, sua oposição a alterar o status quo atual de Catalunha como Comunidade Autônoma dentro da Espanha. Os 4,6% restantes votaram em branco ou nulo.

Os números são expressivos quando se leva em conta que a votação foi impugnada duas vezes pelo Tribunal Constitucional. Havia expectativa de que o governo espanhol mandasse recolher as urnas, colocando a Polícia Nacional ou o Exército nas ruas para impedir a votação ou que o presidente da Catalunha, Artur Más – que organizou a votação – acabasse preso.

Diante da multitudinária manifestação em favor da soberania, propaga-se na Catalunha que a grande lição do 9N é que a Espanha está impotente, não conseguindo mais fazer valer suas leis no território. Ontem, mais de 2,3 milhões de catalães puseram em xeque a legitimidade do Estado atual, desacatando as ordens do governo central. “O mundo viu que a Espanha é um estado falido [na Catalunha]. E os estados falidos não funcionam. Porque não são capazes de regular com eficácia a vida em seus territórios. Ontem, Espanha não mandava em nada na Catalunha”, escreveu o jornalista Vincent Partal em editorial do jornal eletrônico Vilaweb (www.vilaweb.cat), publicado nesta segunda.

Inevitavelmente uma pergunta surge: E agora, qual o destino da Catalunha, visto que a votação foi expressiva, mas não tem valor legal? Qual o caminho para chegar à independência requerida pelos catalães?

Após a votação, o presidente Artur Mas convidou a comunidade internacional a advogar em favor da Catalunha junto a Espanha para que seja realizada uma referendo definitivo, legal e vinculante sobre a independência. E diante da aprovação da população, costurar um acordo de como se dará o processo. Mas isso, de novo, dependerá da Espanha, que não está muito afim de colaborar.

Os mais de 2 milhões de votos favoráveis a um estado próprio catalão mostram que os partidos políticos soberanistas não perderam nem um pouco de musculatura política com o desafio independentista. Pois essa é exatamente a massa de votos que conseguiram nas últimas eleições em 2012, quando obtiveram 2/3 partes das cadeiras no parlamento catalão.

Diante do clamor popular expresso no 9N, o que se espera agora é que esses partidos sintam-se  referendados para dar passos mais largos. Um deles seria dar curso à construção de uma Declaração Unilateral de Independência. Assim previamente serão convocadas eleições plebiscitárias, nas quais os partidos deverão se comprometer a incluir nos seus programas de governo o compromisso de apoiar a declaração de independência.

A Catalunha demonstrou não temer a Espanha, que mostrou-se sem força para barrar os catalães que desejam construir pacificamente um novo país. Muitos foram votar em família e com amigos, com os filhos, com os avôs, inclusive havia bastantes pessoas em cadeira de rodas e outras de bengalas. Também houve os que foram acompanhados com seus animais de estimação. Toda uma nação que ressurge no coração da Europa, pedindo um teto para viver seu futuro por conta própria. Os catalães aspiram a conviver com os espanhóis não mais como companheiros de moradia, senão como bons vizinhos no mesmo andar.

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