Engajados no processo catalão, brasileiros também votam sobre independência

BBC BRASIL

Publicado originalmente em 08/11/14

Liana Aguiar De Barcelona para a BBC Brasil

Os preparativos para o processo participativo sobre a independência da Catalunha, neste domingo, continuam a todo vapor, apesar de o processo ter sido suspenso pelo Tribunal Constitucional na terça-feira (4). Na quinta-feira (6), o Tribunal Supremo manteve o recurso do governo espanhol contra a consulta.

O líder do governo catalão, Artur Mas, garante que a votação será realizada. A decisão de promover um processo participativo não-vinculante foi tomada após o decreto de uma consulta popular ter sido suspenso pela Justiça.

A votação conta com um fato curioso: a participação de imigrantes, incluindo brasileiros. A comunidade imigrante representa 16% da população da Catalunha, o que equivale a cerca de 1,1 milhão de pessoas. Destes, quase 20 mil são brasileiros, segundo o Instituto de Estatística da Catalunha (Idescat).

A campanha “Nosaltres també decidim” (Nós também decidimos), da Assembleia Nacional Catalã (ANC), foi uma das ações criadas para estimular a participação dos estrangeiros que vivem em Barcelona e adjacências. Em 14 vídeos, imigrantes de várias  origens, inclusive uma brasileira, explicam porque vão votar no domingo.

O coordenador da seção de imigração da ANC, Saoka Kingolo, explica que a ideia da campanha é “reivindicar a normalidade da participação nas decisões políticas por parte de toda pessoa que vive e trabalha na Catalunha e contribui para a construção desta sociedade”.

Kingolo acredita que “a participação dos imigrantes será reduzida, porque há uma campanha dissuasória muito forte” e que alguns “têm muito medo de ir à votação”.

Brasileiros engajados no processo catalão também ampliaram a mobilização para que os imigrantes compareçam às urnas.

Contra o medo

É contra esse o medo citado por Kingolo que duas ativistas brasileiras ouvidas pela BBC Brasil explicam que trabalharam com mais intensidade nos dias prévios à votação.

A jornalista e pesquisadora de imigração brasileira, Maria Badet Souza, 33 anos, milita pela independência da Catalunha e coordena, nas redes sociais, a plataforma “Brasileiros 9N” (a abreviatura de 9 de novembro) para esclarecer sobre o processo participativo.

A página explica, por exemplo, que o governo da Catalunha se comprometeu a destruir o registro de votantes para garantir o anonimato dos participantes.

“Queremos que a comunidade brasileira também se envolva nesse processo, seja votando pelo ‘sim’ ou pelo ‘não'”, diz Badet.

Natural de Belo Horizonte, a jornalista e pesquisadora é filha e neta de catalães. “Meu avô lutou na guerra civil espanhola, foi perseguido e fugiu para o Brasil”, afirma.

“Vesti a camisa da independência. Quero que minha filha cresça em um país livre, onde a avó e o bisavô não puderam viver”, disse.

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A advogada Maria Dantas, 45 anos, de Aracaju, vive há 20 anos na Catalunha e é ativista ligada a entidades que defendem os direitos dos imigrantes e secretária da seção de imigração do partido independentista Esquerda Republicana da Catalunha (ERC).

Dantas será mesária em um dos locais de votação e também incentiva os brasileiros a participarem do processo.

Nesta última semana, ela tem participado de atividades de sensibilização em coletivos e associações de imigrantes em diversas cidades catalãs.

“No Brasil, as diferenças regionais não excluem a identidade nacional. Mas aqui na Catalunha eu vivo, na prática, o conceito de nação. A Espanha é um conjunto de nações que foram anexadas”, compara.

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